Perdidos na controvérsia da borra..........

Texto: Marcelo Assumpção
Fonte:http://www.oficinabrasil.com.br
Foto: Omar Matsumoto

Perdidos na controvérsia da borra.

Negligência e informações desencontradas perpetuam mitos a respeito da lubrificação, agravados pela crescente adulteração de combustível
A palavra discordância impera quando o assunto é borra de óleo. A solidificação do lubrificante não é novidade, mas nos últimos anos apresenta-se com uma freqüência crescente. E para o desespero de montadoras, reparadores e proprietários de veículos os motores continuam a fundir graças à negligência e aos conselhos de especialistas. Levantamento da CINAU (Central de Inteligência Automo-tiva), realizado no fim de maio com reparadores de diversas regiões do País, revela que não só 100% dos reparadores já receberam veículos com borra na oficina como também - o que é ainda mais preocupante - há um claro desencontro de informações. Dos entrevistados, 61% nunca tiveram acesso a cursos ou treinamentos sobre o assunto. Já as causas apontadas (Veja gráficos abaixo, em Galeria de Fotos) refletem a realidade, mas as respostas se concentram em um ou outro fator, quando o correto seria apontar que um conjunto deles (variável, é verdade) leva à formação de borra. Ainda com relação aos resultados da pesquisa, os conselhos fornecidos aos proprietários após o reparo não apresentam um padrão, e o mais citado - respeitar os intervalos de troca recomendados em manual - talvez deixe grande parte dos consumidores ressabi-ados, afinal, parece que as próprias montadoras enfrentaram dificuldades para solucionar o problema. O proprietário da reparadora paulistana Motor Max, Rubens Venosa, apresenta-se como exceção. Engenheiro mecânico, eliminou a possibilidade de dúvidas ao adotar os 5.000 km rodados como recomendação-padrão para as substituições de óleo em sua oficina. O que se entende por condições severas, como está nos manuais, é discutível. Tenho clientes que acreditam que usar o carro em trajetos curtos, para levar o filho à escola ou ir ao supermercado, significa exigi-lo pouco. É exatamente o contrário: nessas condições o motor funciona a maior parte do tempo abaixo da temperatura de trabalho e, quando a atinge no trânsito, a refrigeração é inadequada, explica. Entre os dez veículos, em média, recebidos diariamente, Venosa encontra pelo menos um com borra. Me recuso a trocar o óleo sem fazer a limpeza. Sabemos que o óleo novo, com os aditivos que já não estavam mais presentes no antigo, dissolverá algo da borra, mas também desprenderá parte e a fará circular, ocasionando um problema mais grave. O proprietário da Motor Max cita dois casos que movimentaram sua oficina nos últimos anos como exemplos de informação controversa: o do Volkswagen Passat e os dos modelos da linha Renault. A Volkswagen modificou recomendações para a substituição de óleo no Passat pelo menos duas vezes nos últimos seis anos, lembra o consultor em lubrificantes Remo Lucioli, da Inforlub. De acordo com ele, desde 1999 a quilometragem estabelecida para a troca do lubrificante variou de 15.000 km a 5.000 km, com a indicação de diferentes especificações. O supervisor de desenvolvimento de motores da Volkswagen, Mauro Nakamura, alega tratar-se de um procedimento normal na montadora. Os óleos sofrem alterações de desenvolvimento, então, elevamos a exigência de especi-ficação. O engenheiro de produto, Paulo Takamura, completa que é uma tendência entre fabricantes europeus oferecer várias especifi-cações para seus motores. Atualmente, a Volkswagen recomenda os 0W30, 5W30, 0W40, 5W40 e 10W40, de diversos fornecedores (mantém a listagem no www.vw.com.br, em Perguntas e Respostas), que atendem à norma interna VW 502 00. Não percebemos grandes ganhos em se adotar especialmente um óleo. Empregamos a discriminação de viscosidade SAE e, de resto, os ensaios são realizados de acordo com as características dos motores Volkswagen, partindo de normas ACEA (Euro-pean Automobile Manufacturers Association ou Associação dos Fabricantes Europeus de Automóveis, que estabelece normas e testes para a classificação de óleos lubrificantes) e adequando-as as nossas necessidades, o que resulta na VW 502 00, justifica o engenheiro de produto. Ainda com relação ao Passat, Rubens Venosa comenta que é uma linha de motores que funciona a temperaturas superiores no cabeçote. A borra forma-se lá, desce para o cárter e depois entope as galerias. Aconteceu com diversos clientes: a luz se acende no painel indicando falta de pressão do óleo, o proprietário checa o nível e verifica que está normal, roda mais um pouco e o motor funde. A preocupação com o que vinha ocorrendo motivou a Volkswagen norte-americana a enviar uma carta (Veja abaixo, em Galeria de Fotos), em agosto de 2004, aos proprietários dos Passat e Variant 1.8 Turbo fabricados a partir de 1999. A carta informava que os modelos passaram a gozar de uma garantia estendida de oito anos e que eventuais problemas originados por borra seriam cobertos desde que o dono do veículo comprovasse as trocas de óleo segundo as recomendações da montadora. A questão não está no funcionamento a temperaturas e rotações mais elevadas, e mesmo na maior carga empregada. O que ocorre são motores modernos, que exigem mais do óleo, utilizando lubrificantes antigos, que não acompanharam esse desenvolvimento, diz Takamura. Desde que o cliente siga nossas especi-ficações e quilometragens recomendadas para a troca, não haverá borra. Contudo, o supervisor de desenvolvimento Mauro Nakamu-ra diz que não possui informações para explicar o porquê da extensão de garantia. Entendemos que a carta reforça a necessidade de se respeitarem os períodos de troca e especificações recomendados pela Volkswagen.

Adequações na Renault

Quando a montadora francesa iniciou suas importações no Brasil, em 1992, com o modelo 21, recomendava revisões a cada 20.000 km e a substituição do lubrificante aos 40.000 km. Mais tarde, essas quilometragens caíram pela metade. E recentemente, como explica o engenheiro de teste e validação de motores da Renault, Gustavo Volci, foi necessário rever novamente os intervalos. Por causa de diversos problemas, como aconteceu com outras montadoras, reduzimos a quilometragem entre trocas para 10.000 km pensando em proteger o consumidor. O engenheiro concorda que os proprietários não costumam saber o que são condições de uso severas. No entanto, ressalta que o manual da marca lista situações como o cumprimento de trajetos curtos (até 8 km) sem o devido aquecimento, utilizações como reboque, táxi, em estradas poeirentas, patrulha e entregas. Nesses casos, recomendamos a substituição com 5.000 km.
Para Volci, uma vez respeitadas as trocas de óleo de acordo com o tipo de uso, apenas o que é injetado no sistema de alimentação, ou seja, o ar (se poeirento) e a gasolina (se adulterada), podem representar riscos aos motores Renault. Nossos motores mais novos funcionam a temperaturas e rotações mais elevadas, mas o óleo é dimensionado para isso e respeitamos sua tolerância, garante. Enfático, o responsável pela calibra-ção de injeção na Renault, Carlos Eduardo Guimarães, afirma que considera um mito a argumentação de que mudanças tecnológicas e na engenharia dos motores auxiliam a formação de borra. A adulteração de combustível é que cresceu. Até na França encontra-se combustível mais barato adulterado, diz. Entretanto, Júlio César Lodetti, engenheiro de teste e validação de motor, ressalva: Se analisarmos a potência por litro, realmente as solicitações mecânica e térmica aumentaram. Por isso o óleo exige mais cuidados.

Por ser uma questão delicada para as montadoras, não é raro que evitem se pronunciar acerca da formação de borra. Uma das mon-tadoras consultadas foi a Fiat, que também enfrentou reclamações de freqüentes casos de borra. Quando o problema se intensificou, efetuamos análises e identificamos a presença de substâncias que não deveriam estar no óleo, o que nos levou a concluir que se tratava de gasolina adulterada, avalia Carlos Henrique Ferreira, assessor técnico da Fiat. É normal um pouco de combustível se misturar ao óleo, mas se a gasolina for normal, não haverá degradação, conclui. A Fiat respondeu com objetividade e revelou três ações de combate à borra. A primeira se refere à modificação de prazos e espe-cificação do lubrificante. Até 1996, quando foi lançado o Palio, o óleo era mineral e as trocas ocorriam a cada 10.000 km ou anualmente. Com a nova família, adotamos o semi-sintético e estendemos as trocas para cada 20.000 km ou 18 meses, conta Ferreira. A partir de janeiro do ano passado, as substituições mudaram para cada 15.000 km com um SL 15W40. Se o carro rodar em grandes cidades, por trajetos curtos, passamos a recomendar 7.500 km. A segunda ação foi estabelecer aos concessionários que todos os carros que entrassem na oficina teriam o nível do óleo e indícios de borra checados. Por último, a Fiat determinou quais procedimentos a concessionária deve seguir para a limpeza do motor. Orientamos os concessionários a não apenas substituir o óleo em caso de contaminação, mas a limpar o motor, como fazê-lo e com qual produto, afirma o assessor da montadora. Ele diz que não há previsão de nova mudança na especificação do óleo, e acredita que as três medidas foram suficientes.

A escolha do lubrificante

Que uma série de novos fatores é responsável por essa situação endê-mica é indiscutível. E a adequação dos lubrificantes a essas características é ponto-chave quando se fala em borra. O consultor técnico da Texaco para a indústria automobilística, Silvio Riolfi Junior, lembra que por vários anos se remeteu o problema apenas ao combustível. Até que começaram a perceber que não poderia ser só isso. Testes feitos por fabricantes com gasolina de boa qualidade também constatavam a formação de borra. Riolfi concorda que a adulteração de combustível em larga escala é um agravante, até porque, antes da injeção eletrônica o motor rateava e simplesmente não aceitava o combustível. Os 25% de álcool na gasolina também são um problema, ainda que queimem em motores bem projetados e que usem bons lubrificantes. O engenheiro conta que testes realizados em motores com a mesma calibração, porém utilizando gasolinas com 20% e 25% de álcool, mostram que após 600 km já há uma grande diferença de limpeza a favor da gasolina com menor adição de álcool. Até dois anos atrás, ressalta o consultor, os manuais indicavam lubrificantes de acordo com especificações API (American Petroleum Institute ou Instituto Americano do Petróleo). Em outras palavras, especificações norte-americanas empregadas em motores de projeto europeu, que predominam no nosso mercado. Hoje, os testes da ACEA são mais exigentes e adequados aos nossos motores que, ao contrário dos norte-americanos, possuem baixa cilindrada e alta potência. Ele comenta que, por enquanto, a maioria dos consumidores só conhece o API - o que pode ser verificado nos rótulos de lubrificantes, onde o selo aparece com mais destaque que o da ACEA. O engenheiro, que ministra palestras pelo País e participa do desenvolvimento de lubrificantes em parceria com as montadoras, aponta que a maior incidência de borra se dá entre os 1.0, de alta relação potência por litro. A exigência mecânica é maior e funcionam boa parte do tempo próximos a sua capacidade máxima, o que acelera a oxidação do lubrificante (situação em que perde parte de suas propriedades lubrificantes, detergentes e os aditivos). De nada adiantará um bom projeto e combustível de qualidade, mesmo nos novos 1.4 e 1.6, se não for dispensada mais atenção ao lubrificante utilizado. Para reforçar a questão da mudança nos atuais projetos, Riolfi cita que a temperatura no cárter de um Opala era de 90° C, enquanto agora os motores GM atingem 140° C, o que invariavelmente gera conseqüências sobre o óleo. A recomendação de lubrificantes de especificações distintas pelo manual do proprietário é outro ponto questionado pelo consultor da Texaco. Se ao lado de um óleo SL de 20 reais (mais moderno) existe como alternativa um de espe-cificação diferente, que custa menos da metade, e no manual os dois são indicados sem qualquer diferenciação, por que o proprietário optaria pelo mais caro? Riolfi defende que as montadoras deveriam investir mais em lubrificantes, do momento em que o veículo sai da linha de produção ao fim da garantia, além de treinar a equipe de pós-venda para realizar a indicação correta. Existem montadoras que preferem reduzir custos de produção e depois arcam com gastos maiores dentro do período de garantia, afirma. Para o consultor, o óleo de especificação SL 5W30 com selo da ACEA (também se deve atentar a qual norma ACEA atende), menos viscoso, deverá cada vez mais ser adotado pelas montadoras. A partir de janeiro de 2004, a GM também passou a usar o 5W30, já padrão na Ford. Nas palestras, insisto que usar 20W50 ou 20W40 é um erro. Quanto menor a viscosidade quando o motor está frio, menos tempo será necessário para lubrificar peças como os tuchos nos primeiros segundos após a partida. Aliás, é bom lembrar que determinados metais que se desprendem nesse desgaste auxiliam a degradação do lubrificante.O responsável pelo desenvolvimento de combustíveis na Petro-bras, Claudio Coelho, acredita que apesar de toda a tecnologia empregada nos óleos atuais os motores evoluíram de tal forma na relação potência por litro que o óleo se estressa mais que antigamente. Enquanto isso, as montadoras querem prolongar as trocas a períodos e quilometragens que o lubrificante não agüenta. Coelho diz que com o advento dos SL e sintéticos mais sofisticados as montadoras ampliaram as quilometragens entre as trocas, mas voltaram atrás e os intervalos caíram pela metade. O consultor da Texaco também destaca que foi criada uma expectativa sobrevalorizada quanto aos sintéticos, que seriam excelentes na Europa, com gasolina pura. Em contraponto, a gerente de serviços técnicos da Castrol (que utiliza base sintética na maior parte de sua linha), Claudia Cavadas, argumenta que os sintéticos conferem proteção extra. Para atender à demanda dos novos motores e suportar as quilometragens mais extensas, mantemos em linha apenas produtos com especificação API SL, diz.

Os testes não mentem

O Laboratório de Ensaios em Óleos Lubrificantes e Combustíveis do SENAI efetua quatro testes que identificam a tendência de formação de borra. O de viscosidade avalia a propriedade mais relevante do óleo; já o espectro de emissão atômica acusa metais resultantes de desgaste, a contaminação por agentes externos e a aditivação; o ponto de fulgor, por sua vez, identifica a contaminação por combustíveis; e o de reserva alcalina, determina a quantidade de aditivo presente. A responsável pelo laboratório, Lídia Iotti, observa que o anda-e-pára do trânsito é um dos fatores que acelera a degradação do óleo. A queima ineficiente do combustível, resultante da presença de aditivos provenientes da adulteração, também permite que resíduos não-queimados se misturem ao óleo, esclarece. Uma das funções do aditivo existente no óleo é deixar as impurezas diluídas, evitando, assim, acúmulos no motor. Por esse motivo, o óleo em uso deve se aproximar da cor preta. A química reforça a percepção do engenheiro da Texaco ao afirmar que a escolha pelas especificações de menor viscosidade, como 5W30 e 15W30, é benéfica e lhe parece uma tendência na indústria automotiva.Fuja da borra

O diretor técnico do Sindirepa-SP, Antônio Gaspar, recomenda que o flushing (limpeza) com produtos químicos deve ser realizado apenas como ação preventiva, e não corretiva. Se a borra já se formou, o indicado é desmontar e limpar. Com o flushing, placas podem se soltar posteriormente, entupir a bomba de óleo e, conseqüentemente, fundir o motor, explica. Confira outras medidas preventivas para evitar problemas com a borra:
• Se o veículo rodar em centros urbanos, recomende trocas antecipadas de acordo com o indicado no manual para uso severo, ou a cada 5.000 km;
• Cheque se há contaminação e, em caso positivo, promova a limpeza antes de substituir o óleo;
• Reforce que é necessário o proprietário manter-se atento às luzes de advertência, elas podem indicar problemas ainda que o nível do óleo esteja correto;
• Não se iluda com promessas milagrosas, mais importante é optar por um lubrificante de primeira linha que esteja de acordo com a especificação indicada para o veículo.

Pesquisa

O levantamento é um estudo obtido através de uma amostragem simples, sem estímulo, por meio de respostas espontâneas, com um grupo de perguntas fechadas (Estado, escolaridade, cargo e perguntas com respostas do tipo sim ou não) e outro de abertas, que foram consolidadas em função de expressões-chave contidas nas respostas avaliadas. Foi dirigido a mecânicos dedicados à manutenção e reparo de motores automotivos da linha leve. Os entrevistados dos Estados de São Paulo, Minas Gerais, Rio Grande do Sul, Pernambuco e Rio de Janeiro foram assumidos como representativos da opinião de cada região brasileira, em função do número de oficinas existentes. O levantamento foi executado com nível de significância de 5%, erro máximo das estimativas de 4% e intervalo de confiança de 95%, comuns nesses casos. A partir das entrevistas realizadas, foram executados testes de validação e aceitação estatística sob a supervisão técnica, com cálculos e avaliação do estatístico Alexandre Carneiro, CONRE-3ª/6991-A/SP, responsável técnico e legal pelo trabalho. (Veja os gráficos abaixo, em Galeria de fotos).


Voltar

 

   | Empresa | Serviços | Promoções | Dicas | Fale Conosco